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Presente passado



Abri páginas antigas da minha história
e reli parte do passado
ainda quentes letras tatuadas no papel.

Parecia ter saído ainda a pouco
a perfumada tinta da pena
lembrança forte do que a mão esculpiu.

Toquei aquelas páginas
e traí parte do presente
reli com tanta intensidade,
tanta vontade...
que parecia ser mais real
que a própria realidade.

Ao tocar as páginas
senti perfumes e texturas,
Relembrei emoções e sensações,
encarei desejos...

Tudo na releitura acidental
daquele passado distante
que se fez mais vivo,
mais intenso
que o próprio presente.
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ESMOLA




Não desviem o olhar
Enquanto o meu procura a atenção
Em teus olhos fujões
Que insistem em não olhar pra mim

Uma esmola pelo amor Deus!

Eu poderia estar me prostituindo,
Roubando e matando,
Mas estou pedindo!

Pedindo abraço, olhar, carinho
Afeto, compaixão...

ESMOLA!
Pra sustentar a esperança
De um futuro diferente
Da oportunidade prometida
Que a gravidade ainda não esmagou...

Uma esmola pelo amor Deus!
Eu poderia estar me prostituindo,
Roubando e matando,
Mas estou pedindo!

Pedindo a SUA ATENÇÃO!
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Prioridade.


Estou doente. Quem diria! Minha doença é grave e corro sério risco de vida, digo, de morte.
Puseram-me numa fila e não me deram prioridade, apesar de não aparentar, tenho bem mais de sessenta anos. Mas de onde eu seria se estivesse isenta das filas, afinal não sou canadense, européia ou qualquer outra coisa, sou brasileira. E como todo legítimo brasileiro também estou numa fila. As filas passaram a ser cartões postais do Brasil há anos e eu não poderia estar de fora. Mas não estou aqui para reclamar das filas. Quero falar de prioridade.
Estudam a minha doença já faz algum tempo e tenho certeza que se eu perguntar a qualquer um aqui sobre um tratamento eficaz, ou pelo menos algo que alivie os meus sintomas, todos saberiam de alguma receita. Mas você aí pode baixar o braço, vamos, baixe logo! Não me venha com mais uma receitinha caseira qualquer. Estou cansada de alimentar falsas esperanças, de pitaquinhos desacompanhados de ação, de soluções serem engavetadas todos os anos. Então trate logo de ficar quietinho e prestar mais atenção no que estou falando.
Meus sintomas pioram a cada ano, falta apoio às pesquisas, as verbas para tratar meus males desapareceram, faltam pessoas especializadas e capacitadas para cuidar de mim, começaram a faltar os remédios, meu corpo dói todo da ponta do dedo até o último fio de cabelo. Não estou reclamando e até agradeço por ainda ter cabelo, pois não sei até quando eles continuarão grudados ao meu couro cabeludo. Hoje, tenho problema cardíaco, pulmonar, ócio... tenho faringite, labinritite, sinusite, esofagite e outros milhões de “INTES” precisando de tratamentos urgentes, fora os cânceres que se multiplicam diariamente e não se tem equipamentos suficientes para tratá-los. Meu problema é generalizado!
Todo dia surge uma doença nova e ninguém consegue se preparar direito nem para as que já existiam. Estou precisando de cuidados. É dengue, AIDS, malária, gripe aviária, gripe suína, doença da vaca-louca e outros mil animais me deixando maluca diariamente.
Apesar de dizer em toda consulta que “encontrar a cura para a meu mal é prioridade” estou aqui esquecida no final da fila tentando permanecer em atividade na esperança de um dia poder ser assistida com dignidade e respeito, afinal muitos ainda dependem de mim. Não podemos continuar perdendo na fila outros sonhos, outras histórias, outras vidas... Tenho que ser tratada com prioridade. Mais ação, menos promessa!
Ah! Quase esqueço de me apresentar. Que falta de educação. Onde estou com a cabeça? Prazer, meu nome é Saúde.



Ps: Mais uma prosa nesse mar de versos. Essa não é nada poética, mas ta valendo!
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Quem você levaria?


- Quem você levaria pra uma ilha deserta?

Aquela pergunta ecoou em meus ouvidos num incômodo passeio interior. Antes de falar qualquer coisa, relembrei de todas as respostas românticas dadas por distintos olhos quaisquer, mas os olhos que antes respondiam rapidamente antecipando até mesmo o que a boca viria a proferir, não eram os meus.

No eterno momento em que antecedia a reação do resto do corpo meus olhos eram vagantes criaturas perdidas no espaço e tempo. Bem que a boca tentou dizer algo rápido, pouco ensaiado, maquinado e bonitinho, mas meus olhos encararam o nada e a voz calou num silêncio íntimo. Meu interrogador insistiu:

- Quem você levaria pra uma ilha deserta? Tem que ter alguém!

Aquela exclamação ainda me soou pior que a pergunta. Por que tem que ter alguém? Mas o entrevistador era o homem alto e friamente firme a minha frente, e não eu! Responder uma pergunta com outra não é muito inteligente.

Mirei os olhos curiosos e bem treinados do meu interrogador enquanto alongava meu silêncio. Escorria testa abaixo um suor que acusava a impaciência nitidamente chovida por todo seu rosto. Senti que ele entendera meu recado ocular antes mesmo que qualquer outra coisa, mas mesmo assim resolvi dar a tão espera resposta:

-Pra uma ilha deserta eu levaria a solidão! - Respondi com uma voz gélida sustentando olhos ainda mais perdidos no tempo.

O entrevistador emudeceu e a melancólica resposta o deixou temporariamente sem palavras. Transtornado, o não mais seguro homem de antes tentou prosseguir a entrevista enquanto eu apenas alimentava os mesmos vagantes olhos e voz calada...

- Mas como assim a solidão? – perguntou ele apavorado como se fosse inadmissível tal resposta.

Mesmo enxergando muito nítida, refletida em seus olhos, a esperança de que minha resposta poderia mudar eu continuei. Prossegui porque estranhamente estava começando a saborear cada momento daquela entrevista desconcertante. Resolvi não prolongar meu silêncio e dar complemento a resposta mal aceita pelo homem a minha frente:

- ...Mesmo que remassem léguas em busca da minha ilha morreriam todas as minhas respostas na praia, mesmo que romanticamente atravessassem o atlântico em braçadas e mais braçadas minhas alternativas também morreriam na praia, porque a melhor companhia pra um coração cansado é a solidão e o tempo lerdo das ilhas vazias.

O repórter encerrou as perguntas e procurou outro entrevistado. Gravados em sua face estavam, agora, os mesmos vagantes olhos meus...
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Teus últimos versos



22/06/2010

Sãos esses os versos menos escolhidos
Piores escritos pelas mãos de um poeta
Totalmente despido...

São essas as ultimas migalhas de sentimentos
Colhidas de um coração apático
Repleto de nada...

São esses os últimos pingos de lágrimas
Que banham derradeiros suspiros
De alívio...

São esses os últimos relatos colhidos
De uma alma exposta ao mundo
Traída pelo destino...

São esses os últimos olhares desperdiçados
Mirando um futuro longe
Em nome do passado...

São essas as ultimas palavras de um livro
Que não pensava viver tão cedo
Ultimas palavras...
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